Tomei um café comigo mesma
e dei conselhos para o antigo eu
Texto para o segundo tema do Desafio Tagarelas 2.0
Eu cheguei primeiro. Cabelo solto e levamente bagunçado, uma bolsa pendurada em um dos lados do corpo e uma câmera digital nas mãos. Pedi um cappuccino com chocolate e um brownie, me sentando virada para a porta de entrada. Ela parecia igual. Cabelo cheio de frizz, aparelho nos dentes e uma bolsa grande. Eu a abracei como uma velha amiga perdida, daquelas que você não vê durante anos e anos. Ela estava com vergonha. Olhava ao redor como se estivesse com medo. Eu sorria e olhava para a frente. Para ela.
Eu comecei a contar da minha vida. Falei que estava estagiando e que terminava a faculdade no ano que vem. Ela ficou surpresa e me disse que estava chateada por que tinham rasgado suas cartinhas de natal. Eu disse que não tinha problema, que isso não aconteceria mais. Que pessoas iriam gostar do que ela escreve.
Ela contou sobre a Vovó, sobre como passava suas tardes com ela. Sentindo o cheiro do almoço sendo preparado e assistindo os capítulos das novelas. Dessa vez, foi minha vez de chorar. Chorar de saudade. Chorar pelo aperto no peito sempre que penso nela. Eu a disse para aproveitar. Para amá-la como se cada dia fosse uma dávida - por que eles eram. Para se atentar e se despedir com mais calma, quando a hora chegasse. Que ela viveria mais anos sem sua melhor amiga do que os oito pequenos anos que as duas compartilharam.
Eu a aconselhei a viver seus dias com mais carinho e menos pressa. A viver sua infância de modo leve e gentil, sem capturar o peso do mundo adulto sob seus ombros.
Eu a aconselhei a ter mais paciência, pois hoje eu entendo o quão importante é ser paciente.
Eu a aconselhei a não se importar tanto com o que dizem sobre você e que a opinião alheia não é nada comparada à sua própria opinião.
Ela ouvia em silêncio, com a testa franzida. Não entendia o porquê.
Tentou me perguntar sobre o futuro, mas sobre este eu não pude dizer. Apesar de a aconselhar, eu não podia a guiar. O caminho pertence somente a ela, mas o mapa estava em minhas mãos.
Tive que sair, estava atrasada para construir o futuro dela. O meu e o dela. Um futuro só para duas versões diferentes. Eu a abracei novamente. Dei um beijo molhado em sua bochecha e ela reclamou que a sua mãe sempre dizia a mesma coisa dos beijos dela.
Ela me olhou com seus grandes olhos castanhos e agradeceu pelos conselhos. Me disse que eu era bonita e que não podia se imaginar daquele jeito. O futuro ainda era tão longe em sua mente. Me imaginava diferente. Por fim, perguntou se eu era feliz. Eu respondi que era. Haviam dias e dias, mas para aquela menina eu disse que era feliz. Assim, ela não se preoucuparia em ir de encontro com as tristezas. Ela saberia que há felicidade apesar de tudo; Saberia que há uma luz ao fim do túnel.
Mal saí da cafeteria antes que as lágrimas me encontrassem. Eu espero que nos encontremos novamente em breve.
Com amor,
P.




